Empatia Não É Tratar os Outros Como Gostavas de Ser Tratado. É Muito Mais do Que Isso!

Empatia Não É Tratar os Outros Como Gostavas de Ser Tratado. É Muito Mais do Que Isso!
Photo by Toa Heftiba / Unsplash

Provavelmente já ouviste aquela frase que os nossos pais e professores nos repetiam desde pequenos:

"Trata os outros como gostarias de ser tratado."

Parece um excelente conselho, não parece?

É simples, transmite respeito e até fica bem numa caneca motivacional.

Mas... e se te disser que esta regra, apesar das boas intenções, pode não ser assim tão empática?

Uma amiga e colega formadora costuma dizer uma coisa de que gosto particularmente e que me fez olhar para a empatia de uma forma diferente:

"Empatia não é fazer aos outros aquilo que gostaríamos que nos fizessem a nós. É fazer aos outros aquilo que eles gostariam que lhes fizéssemos."

E sabes que mais? Faz todo o sentido.

Porque aquilo que me faz sentir amado, respeitado ou valorizado pode ser completamente diferente daquilo que funciona contigo.

E ainda bem! Imagina um mundo onde todos gostássemos das mesmas coisas, pensássemos da mesma forma e reagíssemos exatamente da mesma maneira.

Era provavelmente muito organizado. Mas também seria uma seca monumental.

É precisamente nas nossas diferenças que está uma das maiores oportunidades de crescimento pessoal.

E é aqui que entra a verdadeira empatia.


Two people sitting in a field at sunset
Photo by Stefan Nutu / Unsplash

1. Afinal, o que é realmente a empatia?

A empatia é a capacidade de procurar compreender aquilo que outra pessoa sente, pensa e vive, tendo em conta a sua perspetiva.

Mas há um pormenor importante: compreender alguém não significa necessariamente sentir o mesmo, concordar ou fazer aquilo que essa pessoa quer.

A psicologia distingue frequentemente duas dimensões da empatia:

Empatia cognitiva: a capacidade de compreender a perspetiva de outra pessoa. É perceber porque é que determinada situação pode ser importante ou difícil para ela, mesmo que para ti não tenha a mesma importância.

Empatia emocional: a capacidade de reconhecer e, em alguma medida, partilhar a experiência emocional de outra pessoa.

Existe ainda uma dimensão essencial na aplicação prática da empatia: a capacidade de transformar essa compreensão num comportamento adequado.

Porque compreender é importante. Mas demonstrar essa compreensão através das nossas ações pode fazer toda a diferença.

Um exemplo muito simples

Imagina que tiveste um dia terrível no trabalho.

Chegas a casa e só queres estar sozinho, em silêncio, durante meia hora.

O teu parceiro, cheio de boas intenções, decide fazer exatamente aquilo que gostaria que lhe fizessem numa situação semelhante: começa a fazer perguntas, tenta animar-te, sugere atividades e não te larga durante os trinta minutos seguintes.

Resultado?

Tu só querias paz.

Ele só queria ajudar.

E, de repente, estão os dois frustrados.

Agora imagina que, em vez de assumir aquilo de que precisas, te pergunta:

"Queres conversar sobre o teu dia ou preferes descansar um bocadinho e falamos depois?"

A diferença é enorme.

A primeira abordagem parte das necessidades de quem ajuda.

A segunda procura compreender as necessidades de quem recebe a ajuda.

E isso é empatia aplicada.


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2. O maior inimigo da empatia? Achar que sabemos o que é melhor para os outros

Temos uma tendência muito humana para interpretar o mundo através das nossas próprias experiências, valores e preferências.

Na psicologia, este fenómeno está relacionado com o enviesamento egocêntrico, que pode levar-nos a utilizar a nossa perspetiva como referência para compreender os outros.

Basicamente, o cérebro pensa:

"Se eu gosto disto, provavelmente os outros também gostam."

É uma estratégia bastante económica em termos de esforço mental.

Infelizmente, nem sempre funciona.

Exemplo no trabalho

Imagina que és gestor de uma equipa.

Gostas de reconhecimento público. Adoras quando alguém elogia o teu trabalho numa reunião.

Por isso, quando um colaborador tem um excelente desempenho, decides elogiá-lo à frente de toda a equipa.

Parece uma excelente estratégia de motivação.

Só há um problema.

Esse colaborador detesta ser o centro das atenções.

Preferia receber o reconhecimento numa conversa individual.

Tu achaste que estavas a proporcionar um momento especial.

Ele passou os cinco minutos seguintes a desejar tornar-se invisível.

A intenção foi positiva. Mas o impacto não correspondeu à intenção.

A verdadeira empatia exige precisamente esta capacidade: reconhecer que as nossas preferências não são universais.

E, acima de tudo, ter curiosidade suficiente para descobrir as dos outros.


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Photo by Gaelle Marcel / Unsplash

3 Ferramentas Simples para Desenvolver a Empatia no Dia a Dia

A boa notícia é que a empatia não depende apenas da personalidade. Podemos desenvolver competências que nos ajudam a compreender melhor as outras pessoas.

E não precisas de fazer um retiro espiritual, passar três dias em silêncio ou começar a abraçar árvores (se bem que não faz mal nenhum se o quiseres fazer).

Bastam algumas mudanças conscientes na forma como comunicas.

3.1. Ferramenta 1: A Pergunta Mágica

"O que precisas de mim neste momento?"

Esta é provavelmente uma das perguntas mais simples e poderosas que podemos utilizar nas nossas relações.

Porquê?

Porque substitui as suposições pela curiosidade.

Em vez de decidirmos aquilo de que a outra pessoa precisa, damos-lhe a oportunidade de nos dizer.

Como aplicar

Sempre que alguém partilhar uma dificuldade, resiste à tentação de apresentar imediatamente uma solução.

Antes de começares a distribuir conselhos como se fosses uma máquina de venda automática de sabedoria, pergunta:

"Queres que te ajude a encontrar uma solução ou preferes que te ouça?"

Exemplo pessoal

Uma amiga liga-te porque discutiu com o namorado.

A tua reação imediata é começar a explicar tudo aquilo que ela deveria fazer.

Mas ela não te pediu um plano estratégico para resolver a relação.

Só precisava de desabafar.

Ao perguntares primeiro o que necessita de ti, evitas um erro muito comum: tentar resolver um problema quando a outra pessoa apenas procura compreensão.

Exemplo profissional

Um colega está frustrado porque não conseguiu atingir os objetivos do mês.

Em vez de começares imediatamente a analisar indicadores e propor soluções, pergunta:

"Preferes que analisemos juntos o que correu menos bem ou precisas primeiro de falar sobre aquilo que te está a preocupar?"

Pode parecer uma pequena diferença.

Mas demonstra respeito pela individualidade e autonomia da outra pessoa.

A grande aprendizagem: não tens de adivinhar as necessidades dos outros. Podes simplesmente perguntar.

E sim, é perfeitamente aceitável admitir que não consegues ler pensamentos. Apesar das expectativas de algumas pessoas.


3.2. Ferramenta 2: Escuta Ativa e Validação Emocional

Quantas vezes estás a ouvir alguém enquanto preparas mentalmente aquilo que vais responder?

Ou pior...

Enquanto esperas apenas por uma pausa para contares uma história ainda mais interessante que a da outra pessoa?

É humano.

Mas não é propriamente um exemplo brilhante de escuta ativa.

Escutar ativamente significa prestar atenção com a intenção de compreender, e não apenas de responder.

Na psicologia das relações, sentir que somos compreendidos, aceites e valorizados é uma parte importante da construção de intimidade e confiança.

Como aplicar

Começa por dar atenção à pessoa, sem distrações desnecessárias.

Depois, procura compreender o significado emocional daquilo que ela partilha.

Podes utilizar frases como:

"Percebo que isso tenha sido importante para ti."

"Imagino que te tenhas sentido desvalorizado."

"Se percebi bem, o que te magoou não foi a decisão, mas a forma como foi comunicada. É isso?"

Repara que não estás necessariamente a concordar.

Estás a reconhecer a experiência da outra pessoa.

Exemplo numa relação amorosa

O teu parceiro diz:

"Fiquei triste porque não te lembraste de me perguntar como correu a reunião."

A resposta defensiva seria:

"Também tive um dia complicado! Não posso lembrar-me de tudo!"

A resposta empática poderia ser:

"Percebo. Aquela reunião era importante para ti e gostavas que eu tivesse demonstrado mais interesse. Tens razão em dizer-me que isso te fez falta."

Não precisas de assumir que és a pior pessoa do mundo.

Nem de organizar uma conferência de imprensa para pedir desculpa.

Precisas de mostrar que compreendeste o significado emocional da situação.

A grande aprendizagem: validar uma emoção não é dar razão a tudo. É reconhecer que aquilo que o outro sente merece ser compreendido.


3.3. Ferramenta 3: O Mapa de Empatia Pessoal

Esta ferramenta inspira-se nos mapas de empatia utilizados em Design Thinking, mas adaptada às nossas relações pessoais e profissionais.

O objetivo é simples: compreender melhor o que é importante para determinada pessoa, em vez de assumirmos que já sabemos.

E não, não estamos a falar de criar uma ficha de Excel para cada amigo.

Embora haja certamente alguém que adoraria fazer isso.

Como aplicar

Escolhe uma pessoa com quem gostarias de melhorar a relação.

Pode ser um amigo, familiar, parceiro ou colega.

Depois, reflete sobre quatro perguntas:

1. O que é importante para esta pessoa?

Valoriza segurança? Autonomia? Reconhecimento? Afeto? Tempo de qualidade?

2. O que a faz sentir-se valorizada?

Palavras de reconhecimento? Gestos de carinho? Ajuda prática? Liberdade para tomar decisões?

3. O que costuma deixá-la desconfortável?

Críticas públicas? Falta de atenção? Mudanças inesperadas? Excesso de perguntas?

4. Como posso adaptar a minha comunicação às necessidades desta pessoa?

Que pequenas mudanças poderia fazer para que se sentisse mais compreendida?

As respostas são hipóteses, não diagnósticos. Confirma-as através de conversas e observa se a outra pessoa se sente efetivamente melhor compreendida.

Exemplo profissional

Tens dois colaboradores.

A Marta gosta de autonomia. Prefere receber um objetivo claro e ter liberdade para decidir como o alcançar.

O Pedro valoriza acompanhamento. Sente-se mais seguro quando existe orientação e feedback regular.

Se deres exatamente o mesmo acompanhamento aos dois, podes acabar com uma Marta frustrada por excesso de controlo e um Pedro inseguro por falta de apoio.

A solução?

Adaptar a liderança às necessidades individuais.

Ser justo não significa tratar toda a gente exatamente da mesma forma. Significa respeitar as diferenças e proporcionar condições adequadas a cada pessoa.

Exemplo numa amizade

Tens um amigo que gosta de celebrar aniversários com grandes festas.

Tu preferes um jantar tranquilo com duas ou três pessoas.

Se organizares uma festa surpresa gigantesca para esse amigo, provavelmente vais fazê-lo feliz.

Se ele fizer o mesmo por ti, talvez passes a noite a questionar as tuas escolhas de vida.

Nenhuma das preferências está errada.

São apenas diferentes.

E reconhecer essas diferenças é uma manifestação de empatia.


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Photo by Annie Spratt / Unsplash

4. Atenção: Ser empático não significa esqueceres-te de ti

Existe um erro frequente quando falamos de empatia: confundi-la com a obrigação de satisfazer todas as necessidades dos outros.

Mas a empatia não exige que ignores os teus próprios limites.

Podes compreender que alguém está triste por não passares mais tempo com essa pessoa e, simultaneamente, reconhecer que precisas de tempo para descansar.

Podes compreender a frustração de um colega sem assumir todas as tarefas que ele não conseguiu terminar.

Empatia e assertividade não são inimigas. São excelentes colegas de equipa.

Uma comunicação verdadeiramente saudável procura equilibrar as necessidades de ambas as pessoas.

Porque respeitar as diferenças também significa respeitar as tuas.


5. O Desafio ensō: 7 Dias para Praticar a Empatia

Esta semana proponho-te um exercício muito simples.

Escolhe uma pessoa importante na tua vida.

Pode ser alguém com quem tens uma excelente relação ou alguém com quem gostarias de melhorar a comunicação.

Durante os próximos sete dias, experimenta aplicar as três ferramentas deste artigo.

Primeiro: pergunta o que a pessoa realmente precisa, em vez de assumires.

Segundo: escuta sem interromper e procura validar aquilo que ela sente.

Terceiro: adapta um pequeno gesto ou comportamento às preferências dessa pessoa.

No final da semana, reflete:

A pessoa sentiu-se mais compreendida?

A comunicação tornou-se mais fácil?

Descobriste alguma coisa sobre ela que desconhecias?

E, talvez a pergunta mais importante:

Quantas vezes percebeste que aquilo que tu gostarias de receber era diferente daquilo que a outra pessoa precisava?


Conclusão: A Empatia Começa Quando Deixamos de Ser a Medida de Todas as Coisas

Aquela frase da minha amiga e colega formadora merece ser recordada:

"Empatia é fazer aos outros aquilo que os outros gostariam que lhes fizéssemos."

Porque a verdadeira empatia não é encontrar pessoas que pensam e sentem exatamente como nós.

É conseguir compreender, respeitar e valorizar aquelas que são diferentes.

É perceber que há pessoas que precisam de conversar e outras que precisam de silêncio.

Pessoas que gostam de abraços e outras que preferem espaço.

Pessoas que precisam de reconhecimento público e outras que valorizam uma palavra de apreço em privado.

E nenhuma delas está errada.

Talvez o maior gesto de empatia não seja perguntar:

"O que faria eu nesta situação?"

Mas antes:

"Se eu fosse esta pessoa, com a sua história, os seus valores e as suas necessidades, do que precisaria realmente?"

Afinal, desenvolver empatia não é aprender a tratar toda a gente da mesma forma.

É aprender a tratar cada pessoa como alguém único.

E isso pode transformar completamente as nossas relações.

Se este artigo te fez pensar em alguém, partilha-o com essa pessoa. Quem sabe se não será o início de uma excelente conversa?

E para continuares a descobrir ferramentas simples de psicologia, comunicação e desenvolvimento pessoal, subscreve gratuitamente o blog da ensö academies.

Porque aprender pode ser simples, útil e até divertido.

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